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Agosto 22, 2005

A nossa relatividade (ep. III)

"..."

Um eco ressoava insistentemente na sua cabeça como que não o deixando esquecer que um dia, à muitas ocorrências atrás, ele havia morrido pelas suas próprias mãos, e nem sequer o facto de o seu corpo ainda estar animado trazia a sua alma de volta.
Pelo seu corpo passaram tempos de viveres e sensações, medos e frustrações, mas também algumas vitórias que o seu pessimismo não deixara saborear.
O medo é um sentimento estranho que leva a actos de grande proeza, mas que também leva a cometer actos de indescritível estupidez…
Estávamos, então, no dia seguinte e ele encontrava-se num quarto que não reconhecia como seu, com pessoas que não reconhecia como suas, não em termos de posse mas de conhecimentos, e eis que um homem entra pelo quarto a dentro e após uma série de perguntas de ocasião termina com: “tens família que possamos contactar?” ao que ele respondeu: “não…”, e eis que subitamente, um calor avassalador emergiu e espalhou-se por todo o corpo, desde miúdo que nunca conseguiu aprender a mentir, e quem sabe essa não será uma das razões da sua inadaptação, este calor é uma forma de castigo, ou de aviso, de qualquer modo pensou para si, “é melhor não falar muito…” e passadas algumas perguntas deixaram-no em paz, os documentos estavam todos em ordem, e isso é que lhes interessa, mas o que lhe interessava a ele era que os seus pais não soubessem, era importante não os desiludir, sempre foi…
Assim, acedeu a todos os pedidos dos médicos e passados alguns dias deu consigo a ter consultas de acompanhamento… sempre achou engraçado o nome que lhes foi dado, é que na sua mente, não raras vezes destorcida, surgia a ideia que seria exactamente o contrário e que seria aconselhamento sobre as melhores maneiras de o cometer, e não de o evitar.
Depressa abandonou estas consultas, diziam-lhe que queria chamar a atenção, e ele perguntava… “a quem?!” é que, de facto, não havia ninguém a quem chamar a atenção, e a sua atitude não foi por ninguém, foi por si mesmo, terá sido, provavelmente, a única vez que se lembra de ter sido verdadeiramente egoísta, e para isso é preciso medo, muito medo. O mesmo medo que agora aproveitava como desculpa para não mais voltar, os seus pais entretanto voltaram, e como mentir era um talento que não possuía resolveu omitir e esquecer o que se passou…